
É mais um típico dia daqueles em que nada dá certo. Você põe os pés para fora da casa e começa a chover. Obviamente não trouxe seu guarda-chuva, afinal há minutos atrás não havia sequer uma nuvem no céu. Ainda antes você deu jeito de, inconscientemente, burlar o seu despertador e acordou atrasado. Tomou banho correndo, se vestiu correndo e escovou os dentes da mesma maneira. Resolveu pular o café da manhã. No curto trajeto entre o portão do prédio e a parada de ônibus você chega completamente ensopado, o cabelo, as meias, tudo. Por conta da chuva todos que esperam pelos seus ônibus se espremem e se acotovelam na parte coberta da parada. É incrível como parece que a cidade dobra a sua população nos dias de chuva, há mais carros nas ruas, mais pessoas nas calçadas. Estas ainda por cima carregam aqueles guarda-chuvas enormes que deixam o “trânsito” ainda mais complicado. Espremido no meio da multidão, seu ônibus, sua única possibilidade de condução tendo em vista os preços de um carro qualquer, surge no horizonte depois de cerca de dez minutos de espera.
Já dentro do ônibus uma face conhecida. Um grande amigo, de longa data está sentado no fundo do ônibus, no último banco. Com fones de ouvido coloridos nas orelhas e sorrindo para a janela só nota sua presença quando você se aproxima e o cumprimenta. “E aí?”. “E aí?”. Típico troca rápida de informações relevantes da juventude atual. Você se senta a seu lado e começa a puxar assuntos corriqueiros como a faculdade, futebol e a tal chuva: as provas neste final de semestre, a insistência absurda do treinador do Internacional em escalar três zagueiros e a água que Deus insiste
Subitamente, como que num passe de mágica, você sente deslocar-se mais rapidamente. “O motorista acordou pra vida” – seu amigo comenta. Você sorri, concordando. De repente uma freada brusca, sons altos e confusos começam a ecoar em sua cabeça. Momentos de total escuridão e de fortes clarões. Estampidos. Tudo gira. O teto, o chão, os bancos, ferros, passageiros, tudo se confunde na imensa confusão da tragédia. Quando dá por si, você está no asfalto, ensangüentado, uma sensação fria e horrível toma conta, ao seu lado fones coloridos, nada mais. Ao fundo uma música começa a tocar, gradativamente cada vez mais alta. Você salta da cama – os pingos de chuva fazem barulho caindo no ar-condicionado – desliga o despertador musical do celular. Um sonho, nada mais do que um sonho.
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