
No entendimento popular, há uma série de fatores que devem ocorrer para que um relacionamento tenha um bom desenrolar. Tudo começa no primeiro encontro. O imaginário geral sugere um lugar romântico, duas pessoas com prévio interesse uma pela outra e um desenvolvimento “lógico” da noite. Eu a conheci durante uma caminhada despretensiosa pelo bairro mais boêmio da cidade, por muito pouco não fiquei em casa naquele dia. Estava na companhia de um amigo, e enquanto andávamos pela rua ele reconheceu um grupo de amigos frente a uma espécie de armazém que vendia cerveja barata. Dentre aquele grupo, ela se destacava. Nossos olhos se cruzaram e, por milésimos de segundo, trocaram confidências. De cara percebi que havia um interesse, sabe como é mulher, logo após essa troca de olhares, apressou-se em cochichar algo no ouvido da amiga.
Com o passar da noite, foram surgindo informações. Descobri que ela tinha um namorado. Me entristeci por um momento, mas o “feedback” que recebia indicava o contrário. Depois de uns quantos “latões” e troca de lugares onde ficávamos, o álcool fez seu efeito. Em determinado momento, ela se deitou em meu ombro. Virei seu rosto e a beijei. O primeiro de muitos. Naquela noite e nos próximos meses. Já no amanhecer, nos despedimos. Ela pediu meu contato, na época, o orkut. Enfim, uma noite exemplar de como contrariar a “lógica” do primeiro encontro.
Ela terminou com o namorado. Combinamos de nos encontrar de novo. Com as mesmas pessoas que estavam conosco quando nos conhecemos. Foi incrível. Nunca tinha ficado com alguém com tamanha intensidade. Voltamos a nos falar pela internet. Marcamos mais um encontro. O primeiro à sós. Um cineminha. Um filme horroroso. Mas uma grande oportunidade de efetivamente conversarmos e nos conhecermos melhor.
E nos conhecemos. Víamos-nos toda semana. Pouco mais de um mês após nos encontrarmos pela primeira vez, a pedi
Já não conhecia me imaginar sem ela, viajamos juntos nas férias. Passamos os dois meses juntos, praticamente todos os dias. Ah, a convivência. Creio que ali surgiram as primeiras brigas. Mas nem de longe algo que pudesse afetar o sentimento. Não tenho dúvidas que foram as melhores férias da minha vida. Mas, acabou. Voltamos. E com a nossa volta, a volta da rotina “acadêmica”. Aulas, estágios, menos tempo. Praticamente nos víamos apenas nos finais de semana. O amor misturou-se com a saudade. E quando nos encontrávamos tínhamos muito para falar. Coisas que poderiam ter sido ditas em outros momentos, mal-entendidos. Mais brigas. Mas ainda assim, o sentimento permanecia.
Mais um ano se foi. Mais férias. E de novo juntos. Dessa vez a convivência nos acertou
A mídia e a opinião pública vendem uma idéia de que os jovens devem “aproveitar” sua juventude. Mas a definição de aproveitar deles é única. Fazer festa, pegar geral, “curtir a vida adoidado”. Fui ingênuo, meu deus como fui ingênuo. Caí na historinha que me vendiam. Passei a acreditar que estava “desperdiçando” a vida estando tão compromissado a uma mesma pessoa. No maior erro que cometi em toda minha vida, desvalorizei o amor. Pedi um tempo, em nome do amor que sentíamos e de tentar fazer dar certo, ela aceitou. Ficamos pouco menos de um mês separados, a falta um do outro falou mais alto. Mas esse tempo, infelizmente, não foi o suficiente pra me fazer crer que aquilo era, de fato, estar aproveitando a vida. Ficamos mais dois meses juntos. Passamos momentos maravilhosos mais uma vez. Viajamos só nós dois. Foi demais. Mas não deu certo. Agora sei que não me esforcei tudo o que podia e me sinto muito mal ao ver que ela esforçou-se ao máximo. Terminamos. De um modo bem traumático, eu diria. Doeu, foi ruim. Mas minha cabeça ainda acreditava que era o certo ficar separado. “Aproveitar a juventude”. Demorou, mas a ficha caiu. Começou a doer, fisicamente. Voltei a falar com ela. Pedi mais uma chance. Pra “começarmos de novo”, ir nos encontrando para ver como nos sentíamos. Houve relutância da parte dela, não aceitou de cara. Obviamente sentia medo de se machucar novamente. Mas gosto de acreditar que o amor falou mais alto. Concordou.
Nos vimos algumas vezes. Umas quatro, cinco vezes, talvez. Sinceramente, me sentia apaixonado por ela novamente, estava feliz de novo. Mas a vida é injusta. Ela veio falar comigo. Perguntou-me se eu estava certo daquilo e se me sentia feliz. Respondi que sim. Ela me disse que não tinha certeza, disse que não estava mais sentindo a mesma coisa. Que achava melhor deixar as coisas como estavam. Separados. Uma faca atravessou meu peito. Confesso, nunca senti tamanha dor. Me desesperei. Fiz coisas erradas. Liguei para ela uma oitocentas vezes. Deixei recados. Pequei. Chorei três dias seguidos. Definitivamente não estava pronto para perdê-la.
Nós nos falamos outras vezes. Coloquei meu ponto de vista, de que sofreríamos menos se estivéssemos juntos. Ela discordou. Insiste me pensar que as coisas não mudariam, que as brigas iriam voltar. Mudei meu jeito de ver as coisas, mas ela me viu pensar de um jeito por tanto tempo, que entendo ser difícil crer que mudaria. Eu sei que mudaria. Jamais magoaria a mulher que amo novamente. Ela diz ainda não ter certeza. Crê ser possível voltarmos a ficar juntos. Diz que ainda me ama. Muito. Confesso, isso ameniza um pouco a dor, mas ao mesmo tempo me parece não fazer sentido duas pessoas que se amam ficarem separadas.
Hoje faríamos dois anos de namoro. E estamos longe um do outro, pra “evitar” de nos machucar. De repente, isso é agir com a razão. Com a “lógica”. Só espero que, como durante toda a história desse relacionamento, ela novamente não se faça presente. E o que foi, volte. E que não exista nenhuma lógica nesse tempo separado. E que não exista nenhuma razão para não ficarmos juntos. E que essas lágrimas que derrubo enquanto escrevo, sejam todas em vão.
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