
Poucas agonias são comparáveis a de se encarar uma folha em branco. Qualquer atividade que se comece do zero tem a tendência de apresentar-se particularmente assustadora. No dia-a-dia do jornalista, esse desafio é encarado diariamente. Quantas vezes e por quanto tempo ficamos frente a frente com o papel vazio? E, ainda por cima, nosso trabalho é facilitado pela quantidade de informações que dispomos antes de começar um texto. Temos entrevistas, dados estatísticos, etc. Por muitas vezes, nossa atividade se resume a “aglomerar” todo esse conteúdo e deixá-lo minimamente organizado e agradável aos olhos do leitor. Mas e o escritor? E o cronista, atividade na qual eu atrevo a me aventurar pela primeira vez no momento? Criatividade posta à prova. Por mais que haja a liberdade de se escrever “sobre qualquer assunto”, o terror da folha em branco está sempre presente. E talvez esse seja outro obstáculo. Com uma gama infindável de assuntos para escolher, o cronista se vê, desde o princípio, forçado a fazer valer sua criatividade. Sim, pois este não pode abordar um fato e tratá-lo como notícia. Para isto existem os repórteres. Também não pode simplesmente narrar uma história, como se estivesse escrevendo um diário. Há sempre o objetivo de cativar, interessar quem lê. Alguns optam pelo estilo mais engraçado, divertido. Outros se destacam por causar o “estranhamento” no leitor, aquela sensação de que algo está errado, mas que nos faz continuar lendo até o final. Também tem aqueles com a habilidade de juntar assuntos improváveis e exibir um belo resultado final. Os gaúchos David Coimbra e, especialmente, Luís Fernando Veríssimo, são dois modelos incríveis de todas essas categorias de cronistas. E claro, há também aqueles “malandros”, que frente a aflição da folha em branco escrevem sobre não ter o que escrever. Ou optam por uma crônica sobre... crônicas! Mas bem, estes, por muitas vezes, tendem a ser marinheiros de primeira viagem.
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